Rafael Maracajá: O espetáculo transformado em julgamento

O julgamento que nunca vai acabar. Algo contínuo, espetacular, transcendente, interativo, um novo entretenimento, afinal de contas, o Brasil mudou, acabou a corrupção, e finalmente, a justiça acalentou o judiciário.

A análise que me perturba vai além do mérito de “atos indeterminados” que Moro transformou em crime. Lula já foi pintado de ladrão antes mesmo do desenho. O estigmatizado “Nine” ganhou um sobrenome, triplex.

A temporalidade eleitoral impôs uma ferramenta de adequação processual. O fundamento já não é tão fundamental. A fama aplaudiu juízes e o criacionismo jurídico tupiniquim foi reinventada com o objetivo dimensionando o objeto.

Vou logo “alertando”, comprasse um imóvel? É simples, simplesmente esqueça os cartórios, Moro determinou que o importante agora é “pagar pedágio”. Aquele que inocentou a esposa de Cunha com contas no exterior condenou um ex-presidente que supostamente ganhou a reforma no BNB da praia. Judiciário ou Política? Onde encontraremos justiça?

Essas questões estão sendo respondidas no varal das expectativas, com uma gama variada de perspectivas, espelhando olhares individuais. Tudo isso vem sendo construído na sociedade do “EU”, efêmera, carregando constantemente o “posto, logo existo”, com grandes narrativas de um hoje.

Porém, precisamos de exemplos históricos para analisar com a profundidade necessária o “evento” chamado de julgamento.

Vamos em frente.

Não preciso enumerar as investigações contra Aécio ou Temer. Seria repetição prolixa falar em malas, dinheiro, filmagem, ou melhor, filmagens de malas com dinheiro. Quanta diferença faz algumas preposições? Como estranha o silêncio de uma sociedade que clamava moralidade. Onde está o espetáculo? Que enredo é esse?

Colocando o “conto” em circunferências menores.

Em algum momento da história do nosso estado, o então governador Ronaldo Cunha Lima decide lavar a honra da família assassinando o ex-governador Burity. Motivo? Seu “menino” estava sendo acusado de roubo. A CPI do FINOR citou Cássio Cunha Lima por ter desviado dinheiro público da SUDENE, solução, fecha, pois o menino virou homem, tinha que ser governador, e foi. Tudo isso é normal e moralmente aceito.

São milhares de pequenos laudos. Exemplos, muitos, de uma moralidade seletiva, política, com bravatas apolíticas. Diversos seriam os retratos falados na lista que você encontraria o seu bandido de estimação. Sabe a diferença dele para Lula? O teu nunca cometeu o único crime condenável para você: ser o nordestino que venceu transformando a vida de milhões de brasileiros.

Rafael Maracajá Antonino: Natural de Serra Branca, cidade localizada no Cariri paraibano. Bacharel em Direito pela Universidade Estadual da Paraíba é advogado militante na área previdenciária, mestre e doutorando em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Campina Grande. Nos últimos anos tem desenvolvido pesquisas sobre o Impeachment da presidenta e a articulação neoconservadora nas Redes Sociais.

Por: KLEBSON WANDERLEY em 25 de janeiro de 2017

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