Quando o agente secreto encontra a trilha de Sumé

Assisti pela segunda vez ao filme O Agente Secreto. A primeira experiência foi no cinema; a segunda, em casa, pela Netflix, com o tempo necessário para observar aquilo que muitas vezes passa despercebido na intensidade da sala escura.

O cinema tem uma força própria: a tela gigante, a experiência coletiva, a potência estética das imagens. Mas a revisão tranquila de um filme permite algo igualmente valioso — perceber os detalhes que revelam o cuidado de uma obra. Foi exatamente isso que ocorreu na segunda vez em que assisti ao filme.

Em determinado momento da narrativa surge na trilha sonora a música “Trilha de Sumé”, composição de Lula Côrtes e Zé Ramalho, lançada no álbum Paêbirú – Caminho da Montanha do Sol. O disco, hoje considerado uma obra cult da música brasileira, mistura psicodelia, regionalismo e referências à mitologia indígena e aos caminhos ancestrais do interior do Nordeste. Para muitos espectadores talvez seja apenas uma escolha musical. Para quem conhece um pouco da história cultural nordestina, no entanto, esse detalhe carrega uma dimensão muito mais profunda.

Confesso que esse momento me chamou ainda mais atenção por uma razão pessoal e geográfica. Sumé é uma cidade do Cariri paraibano situada na mesma região da minha querida cidade de Monteiro. O nome que aparece na música não é apenas uma referência mítica ou literária; ele também remete a um território real, a uma paisagem e a uma cultura que fazem parte da identidade de todo aquele pedaço do sertão.

O próprio nome da cidade tem origem em uma das narrativas mais antigas do imaginário nordestino. Segundo tradições indígenas registradas desde o período colonial, Sumé seria um personagem lendário que teria passado pelo Nordeste muito antes da chegada dos europeus. As histórias contam que ele ensinava aos povos originários práticas de cultivo, organização social e formas de convivência com a terra. Depois de cumprir essa missão, teria desaparecido, deixando marcas e caminhos pelo sertão.

Com o passar do tempo, antigas inscrições gravadas em pedras em diferentes regiões do interior nordestino passaram a ser associadas, pela imaginação popular, aos caminhos percorridos por esse personagem — as chamadas trilhas de Sumé.

Em várias áreas do Nordeste, especialmente na Paraíba e em Pernambuco, existem formações rochosas com inscrições rupestres milenares. A arqueologia identifica nessas gravuras registros da presença humana na região há milhares de anos. A tradição popular, por sua vez, transformou essas marcas em narrativas simbólicas, ligando-as às supostas passagens de Sumé pelo sertão.

Quando a música aparece na narrativa do filme, ela introduz uma dimensão que vai além do simples acompanhamento sonoro.

No cinema, a trilha sonora muitas vezes funciona como uma segunda narrativa. Ela cria camadas de interpretação que nem sempre estão explícitas nas imagens ou nos diálogos. Quando uma música carrega uma história própria — como ocorre com “Trilha de Sumé” — o filme passa a dialogar também com essa tradição cultural.

O contraste é poderoso.

De um lado, o filme apresenta uma narrativa situada no tempo presente, marcada por tensão, investigação e movimentos discretos que conduzem o enredo. De outro, surge uma música carregada de memória cultural, ligada a um personagem que pertence ao imaginário histórico do sertão.

Enquanto a história do filme se move no presente, a música evoca um tempo muito mais antigo — um tempo de mitos, de caminhos gravados na pedra e de histórias transmitidas de geração em geração.

Esse tipo de escolha revela o cuidado estético do diretor Kleber Mendonça Filho e de sua equipe. Em sua filmografia, a trilha sonora nunca aparece apenas como fundo musical. Ela participa da construção da narrativa, criando atmosfera e ampliando o significado das cenas.

Trazer para a trilha do filme uma composição de Lula Côrtes e Zé Ramalho é, portanto, mais do que uma escolha estética. É também uma forma de conectar o cinema contemporâneo com o patrimônio cultural do Nordeste.

Esses detalhes revelam algo fundamental na construção de uma obra cinematográfica: grandes filmes não se sustentam apenas pelas grandes cenas, mas também por pequenos sinais que ampliam a profundidade da narrativa.

Foi somente ao assistir ao filme pela segunda vez que percebi plenamente esse encontro simbólico entre o enredo contemporâneo e uma memória cultural muito mais antiga.

Talvez seja exatamente por isso que esse momento da trilha sonora chama tanta atenção. Em poucos segundos de música, o cinema contemporâneo abre passagem para uma memória muito mais antiga — aquela que corre pelas pedras, pelas histórias e pelos caminhos do sertão.

Quando ecoa “Trilha de Sumé”, o filme deixa de dialogar apenas com o presente e passa a tocar uma tradição que atravessa séculos. E então percebemos que certos caminhos — como os caminhos do sertão — continuam sendo percorridos através do tempo.

Inácio Feitosa
Advogado e fundador do Instituto IGEDUC
(projetos@igeduc.org.br)

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A Prefeitura de Sumé, por meio da Secretaria Municipal de Saúde, realizou nesta sexta-feira mais uma Feira de Saúde na zona rural. A ação aconteceu na Unidade Âncora de Saúde da comunidade Riacho da Roça e reuniu moradores da localidade e de comunidades vizinhas.

Ao todo, 153 atendimentos foram realizados durante a programação, que concentrou diferentes serviços de saúde em um único local. Os moradores tiveram acesso a consultas médicas e de enfermagem, atendimento odontológico por meio da unidade móvel, vacinação, marcação de consultas, emissão e atualização do Cartão SUS, coleta para exames laboratoriais, fisioterapia e regulação de exames.

A Farmácia também esteve presente durante a ação. Com isso, os pacientes que receberam prescrição e tinham o medicamento disponível puderam sair do atendimento já com o remédio em mãos.

Segundo a secretária municipal de Saúde, Niedja Rodrigues, a Feira de Saúde permite levar para as comunidades serviços que normalmente exigiriam o deslocamento dos moradores para a cidade.

“Na feira de hoje, fizemos questão de trazer mais serviços. Tivemos dois médicos, laboratório, farmácia, fisioterapia e regulação de exames, para que o usuário possa sair daqui com o exame regulado e, quando necessário, com o medicamento em mãos”, explicou.

A Unidade Âncora do Riacho da Roça já funciona regularmente a cada 15 dias, com atendimento médico, de enfermagem e odontológico, além da atuação de técnicos de enfermagem e agentes comunitários de saúde. Nesta sexta-feira, a estrutura foi ampliada com a presença de outros profissionais e serviços.

O atendimento odontológico também terá continuidade. A unidade móvel permanecerá na região por mais uma semana, permitindo que outros moradores tenham acesso ao serviço.

O prefeito de Sumé, Manezinho Lourenço, acompanhou a programação e destacou a importância de levar os atendimentos para mais perto das comunidades rurais.

“A gente sabe da dificuldade de quem mora na zona rural para se deslocar em busca de atendimento. Por isso, é importante trazer os serviços para perto dessas pessoas e garantir que elas tenham acesso ao atendimento de que precisam”, afirmou.

Além dos serviços de saúde, 30 crianças receberam kits escolares por meio do programa Criança na Escola.

A Feira de Saúde já passou pelo Assentamento Mandacaru e pelo Sítio Santo Agostinho. A próxima edição está programada para o dia 11 de setembro, na comunidade do Sítio Jurema.

Também acompanharam a ação o secretário municipal de Obras, Serviços Urbanos e Agricultura, Vicente Lourenço, e o vereador Damião Rildo.

De Olho no Cariri

Ascom – Prefeitura de Sumé