Sérgio Moro: Bolsonaro queria interferir nos inquéritos da Polícia Federal

O ex-juiz federal Sergio Moro pediu demissão do cargo de ministro da Justiça e da Segurança Pública nesta sexta-feira.

Ele fez um pronunciamento de aproximadamente 40 minutos para comunicar e explicar o seu pedido de demissão.

Confira as principais declarações:
“Foi prometido na ocasião [da minha nomeação] carta branca para nomear todos os assessores desses órgãos, inclusive policiais da Polícia Rodoviária Federal e da própria Polícia Federal”.

“Tem um única condição que eu coloquei. Eu não ia revelar, mas agora acho não faz mais sentido manter em segredo, e isso pode ser confirmado tanto pelo presidente [Jair Bolsonaro] quanto pelo general [Augusto] Heleno. Eu disse que como estava abandonando 22 anos de magistratura, contribui 22 anos para a Previdência e perdi, saindo da magistratura, essa previdência. Pedi apenas, já que íamos ser firmes contra a criminalidade, especialmente a organizada, que se algo me acontecesse, minha família não ficasse desamparada, sem uma pensão. Foi a única condição que coloquei pra assumir essa posição específica no Ministério da Justiça”.

Moro disse que o presidente Jair Bolsonaro gostaria de ter uma relação mais próxima com as pessoas nomeadas para a Polícia Federal, como alguém que “que ele pudesse ligar, que ele pudesse colher informações, que ele pudesse recolher relatórios de inteligência”. “Eu disse que seria uma interferência política. Ele disse que era mesmo”.

“Não haveria uma causa e está claro que estaria havendo uma interferência política na Polícia Federal, o que gera um abalo da credibilidade, não só minha, mas também do governo. Desse compromisso maior que temos que ter com a lei.”

“[A troca do diretor-geral] ia gerar uma desorganização. [Isso] não aconteceu durante a Lava Jato, a despeito de todos os problemas de corrupção os governos anteriores.”

“Eu realmente assumi esse cargo, fui criticado e entendo essas críticas, mas a ideia era buscar um nível de formulador de políticas públicas, de aprofundar o combate à corrupção”.

“A partir do segundo semestre do ano passado, passou a ter uma insistência do presidente para a troca do comando da PF. Isso, inclusive, foi declarado publicamente pelo presidente. Houve primeiro o desejo de trocar um superintendente da Polícia Federal do Rio de Janeiro”.

“Eu não indico superintendentes. A única pessoa que indiquei foi o diretor Maurício Valeixo”.

“Assim tem sido o Ministério como um todo. Sempre tenho dado autonomia para que eles façam as melhores escolhas. Assim se valorizam os subordinados e as escolhas técnicas”.

“[Recebi] a notícia quando assumi o Ministério da Justiça de que havia rumores que a Polícia Rodoviária Federal tinha algumas superintendências com indicação política. O que não é aceitável de maneira nenhuma são as indicações políticas”.

“Quando se preenche esses cargos técnicos por motivos partidários, o resultado não é bom pra corporação”.

“O presidente também passou a insistir na troca do diretor-geral. O que eu sempre disse: ‘presidente, não tenho nenhum problema em trocar o diretor-geral da PF, mas eu preciso de uma causa normalmente relacionada à uma insuficiência de desempenho, um erro grave”.

“A exoneração que foi publicada, eu fiquei sabendo pelo DOU na madrugada, não assinei decreto. Em nenhum momento o diretor-geral [Maurício Valeixo] apresentou um pedido formal de exoneração”.

“O fato é que não existe nenhum pedido feito de maneira formal, eu fui surpreendido, achei que isso foi ofensivo”.

“[Penso no] impacto que isso vai ter na corporação. Uma substituição orientada por causas que possam ser sustentadas não haveria nenhum problema específico. Valeixo nunca sairia voluntariamente da PF.”

“Para mim, esse último ato é uma sinalização de que o presidente me quer fora do cargo. Essa precipitação da realização da exoneração, não vejo muitas justificativas”.

“Meu entendimento foi que eu não tinha como aceitar essa exoneração. Respeito a lei e o Estado de Direito. Tenho que preservar o compromisso que fiz com o presidente, que iríamos combater o crime organizado. Temos que garantir o respeito à lei e a própria autonomia da Polícia Federal contra interferências políticas”.

“Ele assumiu um compromisso comigo, de que seria uma escolha técnica, percebendo que essa interferência política pode levar à relações impróprias dos superintendentes e diretores com o presidente da República.”

“De todo modo, eu agradeço o presidente pela nomeação que foi feita lá atrás. No futuro, vou começar a empacotar as minhas coisas e vou providenciar a minha carta de demissão.”

“Que seja indicado alguém que possa realizar um trabalho autônomo e independente. Eu abandonei esses 22 anos de magistratura, infelizmente é um caminho sem volta. Vou descansar um pouco.”

“Independente de onde eu esteja, eu sempre vou estar à disposição do país. Sempre respeitando o mandamento do Ministério da Justiça, que é fazer a coisa certa, sempre.”

Com informações da CNNBrasil 

Foto: Agência Brasil

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Capitaneada pelo PL de Flávio Bolsonaro, a direita tirou cadeiras do centrão no Senado e fez o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) amargar a sua pior votação em termos de votos válidos em um primeiro turno desde 1998.

Lula teve 53,9 milhões de votos neste domingo (4) e ficou atrás de Flávio, com 56,1 milhões de votos. Em porcentagem, o candidato do PL teve 47% dos votos válidos e o petista, 45,2%.

Em 2022, quando enfrentou Jair Bolsonaro (PL), Lula teve 48,4% dos votos válidos. Em 2006, quando disputava a reeleição, marcou 48,6%. E em 2002, quando chegou à Presidência pela primeira vez, teve 46,4%.

A última vez que o petista teve uma porcentagem de votos válidos tão baixa em um primeiro turno foi em 1998, quando enfrentou Fernando Henrique Cardoso (PSDB) em busca da reeleição e marcou 31,7%. Na ocasião, Lula foi derrotado ainda no primeiro turno.

Quem perde, quem ganha

Lula perdeu cerca de 3,4 milhões de votos entre 2022 e 2026 e saiu derrotado em estados-chave para o resultado eleitoral, como em Minas Gerais, que sempre deu maioria dos votos a todos os presidentes eleitos desde 1989.

Na outra ponta, Flávio superou a votação do pai em 2022 em cerca de 5 milhões de votos, saltando de 51,1 milhões (43,2% dos votos válidos) para 56,1 milhões.

Os números de Flávio neste domingo se refletem nos resultados do PL nas eleições para o Senado.

O PL elegeu 19 senadores. Somados aos nove que já cumpriam mandatos definidos pelas urnas em 2022, o Partido Liberal tem hoje a previsão de ocupar 28 cadeiras no Senado a partir de 2027.

O partido Novo vai ter três senadores. Deste trio, dois abandonaram a campanha do correligionário Zema e apoiaram a candidatura de Flávio ao Palácio do Planalto ainda no primeiro turno: Marcel van Hattem (RS) e Deltan Dallagnol (PR).

Somados, PL e Novo terão 31 senadores — quase 40% do Plenário da Casa. E há outros senadores bolsonaristas fora do PL, como Damares Alves (Republicanos-DF) e o recém-eleito Guilherme Derrite (PP-SP).

O PT não ganhou cadeiras, mas também não perdeu: seguirá com as dez que já possui.

Mas, no saldo, a esquerda vai ficar com três cadeiras a menos: o PSB saiu de sete para três; a Rede foi de zero para uma; e o PDT caiu de duas pra uma.

Quem mais teve que ceder espaço foi centrão. O PSD, por exemplo, perdeu nove cadeiras no Senado.

Mais governadores

A onda de direita também foi sentida nas eleições para os governos estaduais.

Hoje, o PL comanda apenas um estado: Santa Catarina, com Jorginho Mello.

Já em 2027, serão no mínimo cinco, com Paraná (Sergio Moro), Rondônia (Marcos Rogério), Roraima (Arthur Henrique) e Rio Grande do Sul (Zucco). Santa Catarina, com Jorginho Mello reeleito, fecha a lista.

Também há dois nomes do PL disputando o segundo turno: Douglas Ruas, no Rio de Janeiro, e a Professora Maria do Carmo, no Amazonas.

No RJ, Ruas teve 49,3% dos votos válidos no primeiro turno e ficou à frente do ex-prefeito da capital fluminense, Eduardo Paes (PSD), apoiado por Lula.

Ruas precisa de menos de um ponto percentual para ser eleito.

Desde 2018, o Rio de Janeiro tem consistentemente dado mais votos à família Bolsonaro e a seus aliados do que ao PT — tanto para a Presidência, quanto para o governo local.

O estado também elegeu dois nomes do PL para o Senado: Carlos Portinho (reeleito) e Carlos Jordy.

De Olho no Cariri

Com CNN Brasil